Aconchego-me no teu regaço
esqueço-me de quem sou
sinto a leveza de um corpo
um rosto anônimo
medo e melancolia.
caminhamos de mãos dadas
solto os meus cabelos ao vento
saboreamos o silêncio
mergulhamos num mar de flores
banhados pelo luar.
Sou a tua cumplíce no tempo vazio.
Colori as minhas esperanças
de te fazer feliz.
Abro os olhos ao meu redor
vejo tudo vazio.
sonho, sonho meu...
singularidade
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
1926
Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa,
Sem avisares
entras subtilmente
e pintas as almas de negro
aninhas-te nos corações desalentados
deixas marcas nos rostos amargurados.
Embalas ao som dum violino surdo
Apagas a luz do dia
almas mergulhadas na angústia
medo e aflição.
Sugas as lágrimas salgadas
alimentas-te da escravidão
Lutamos contra ti
e rasgamos-te por fim
es uma teia envolvente
da tristeza e da solidão.
singularidade
Carta de uma criança Índigo a um professor
Olá e obrigado por ler a minha carta.
Eu sou aquela criança que normalmente não pára quieta na carteira, e a quem está sempre a dizer
para se calar. É que, às vezes, eu entendo as coisas antes do Senhor acabar de explicar a matéria e,
se tem de repetir, aborreço-me. Às vezes posso ser muito mal-educado ou explosivo para chamar a
atenção. Gosto de falar de temas que o senhor "acredita" não serem para a minha idade. Está sempre
a dizer aos meus pais que não consigo aprender, no entanto, se alguma coisa me interessa aprendo
facilmente, mas quando já tenho conhecimentos suficientes ponho de lado porque me aborreço.
Não contesto a autoridade, mas o entendimento e as explicações. Aprendo por imitação: o seu
exemplo para mim é muito importante. Segundo o senhor, estou sempre a transgredir as normas e a
criar outras. Sou esse génio em "potência" que se se concentrasse em algo seria melhor...
Os meus pais levaram-me ao médico e dizem que tenho ADHD, uma coisa chamada “Deficiência de
Atenção com Hiperactividade”, e isso quer dizer que não paro quieto, não posso prestar atenção
durante muito tempo, distraio-me facilmente e, além disso, sou hiperactivo.
O médico queria que eu tomasse Ritalin (a minha mãe recusou dizendo que as anfetaminas criam
toxicodependentes). Então, ela investigou e, agora, faço coisas que direccionam a minha energia
(desporto, artes marciais, Tai-chi, Yoga), e evita dar-me alimentos com açúcar ou glucose e sinto-me
mais calmo.
Não gosto que me tratem como criança, talvez saiba menos de certas coisas, mas isso não significa
que não saiba. Estou no meu processo.
Dê-me mais tempo para assimilar as coisas, pois aprendo de maneira diferente.
Se eu não aprendo de uma forma tradicional... porque usa sempre a mesma maneira? Quem sabe
se fosse um método mais prático?
Estou sempre a perguntar... porquê? Isso não quer dizer que o estou a pôr à prova, tenho somente
curiosidade. Se não souber a resposta diga-me. Não seja evasivo, guie-me para eu encontrar a resposta.
Gostaria que me incluísse quando tomasse decisões que me afectam, não sou simplesmente mais
um aluno.
Gostaria que reconhecesse que sou diferente e não que me classificasse como diferente.
Não sou nem mais nem menos que o senhor. Se me explicasse para que serve o que estudamos e
que para conseguir certas coisas preciso de disciplina, reagiria de maneira diferente.
Quando não me conseguir concentrar faça alguma actividade para me distrair: um jogo, música,
dança... Mas não grite comigo.
Sei que muitas vezes se desespera na sala de aula pois nenhum de nós lhe presta atenção. Já se
preocupou em saber o que realmente nos interessa?
Despeço-me com Amor
José Manuel
(Este texto foi escrito por José Manuel Piedrafita Moreno, Educador e Índigo Adulto.
(É livre de usar e divulgá-lo desde que não altere integral ou parcialmente, incluindo os créditos).
Cai a noite lentamente
sem palavras
sem sussurros
olhar sem desejar
olhar por olhar
os labios amargurados
silenciaram as palavras
secaram as lágrimas
cansados
de pedir
e implorar
humilhadas chicoteadas
palavras cruéis
ocas, loucas
vomitadas
de crueldade
sobre a fragilidade.
Novos horizontes renovados
pelo amanhecer.
singularidade
Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meiréles
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
Fernando Pessoa
singularidade
Germino na planíce árida
quero brotar, olhar a luz do sol
que me aquece da frescura da noite
rebento a crosta duma ausência
sou um ser vivo, despido
diante da vida.
cresço cresço sem parar,espalho sementes
em terrenos baldios
nasce campos verdejantes,existe o habitat
reaparece o arco-irís no céu, a esperança.
singularidade
Quando tu partires
guardarei com ternura o teu olhar triste
Ficará tudo sombrio e vazio
A falta de um abraço que não dei
o beijo que não roubei
o eco das palavras que não ouvi
As memórias ficarão guardadas
como um arco irís mágico
O escuro não seria frio
e a noite será clara
A jornada continuará!
e amanhecerá um novo dia
Seguirei a minha estrada em silêncio.
singularidade
os sorrisos permanecem
os medos desaparecem
ergo a cabeça altiva
rasgo as minhas vestes
desnudo a minha alma
choro as minhas mágoas
liberto-me das amarras
Estou ávida de tudo!
persegui quimeras
esqueço-me de quem sou
e o tempo não perdoa
enlouqueço com o medo
de perder o que não tive
luto, luto para me libertar.
singularidade


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector
Rosa branca
Para as vitímas do Sismo que afectou vários países do sudoeste asiático e da África Oriental.
Estão confirmadas vítimas em doze países.
singularidade
Procuro palavras adormecidas.
Olho o mar! sinto o vento.
Deito-me na praia ao relento.
Resgato as vidas partidas.
Miro a lua, começo a divagar.
Colo a minha vida em pedaços.
Vem de longe, oiço os teus passos.
Ensina-me a viver, vamos caminhar.
Guardo com ternura o teu olhar.
Vou ao fundo das minhas emoções.
A minha alma continua a chorar.
Angustia e medos são recordações.
Na calmaria da noite oiço o mar.
Lembro que as minhas pegadas são ilusões
singularidade